quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Em relação a ti



“Após a emoção do encontro com a Doutrina Espírita, agora, quando os deveres constituem norma de comportamento diário, na tua vida, observas, algo desencantado, a necessidade da contínua renovação de forças a fim de não desfaleceres.

Supunhas, inicialmente, que logo seriam resolvidos todos os problemas. Todavia, ei-los que retornam afligentes, complexos. Dispões, porém, de recursos valiosos que não podes desconsiderar e graças aos quais não desfalecerás.

Reflete: Quem tem fé, não se abate ante noite escura. Quem confia não se desespera na convulsão. Quem ama não se debate na desconfiança. Quem crê não se tortura na incerteza. Quem espera não se atira nos braços da aflição. Quem serve não se agasta com a ingratidão. Quem é gentil não aguarda entendimento.

Quem é puro não se revolta com as calúnias. Quem perdoa não pára na caminhada a fim de recolher excusas. Quem se renova no Cristo não retorna à prisão do erro.

Se tens fé, persevera. Haja o que houver, prossegue impertérrito, mente dirigida ao Senhor e mãos no trabalho edificante. Não olhes para trás, nem te confies à depressão. Este é o teu momento divino de avançar. Não o malbarates inutilmente. A claridade da Crença que ora te aponta seguro roteiro, far-se-á tua lâmpada de alegria onde estejas, com quem te encontres, como te sintas. E quando a noite do túmulo se abater sobre o teu corpo cansado, ela será o Sol nascente do Dia Novo que deves, desde agora, aguardar com júbilo e por cuja razão deves insistir e perseverar.”
(Joanna de Ângelis, Celeiro de  bênçãos, item 4)
A Doutrina Espírita é aquele curso que oferece os textos, o conteúdo das aulas e até professores que nos passam suas experiências, sem exigências.
Aos poucos compreendemos os ensinamentos e começamos o esforço para coloca-la em prática sempre sob os ensinamentos do Evangelho de Jesus. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O INGLÊS



“Nasci em terras europeias, mais precisamente na Inglaterra. Lá conheci a amargura e a solidão. Rejeitado desde a infância, aprendi a não sonhar. Obter o pão de cada dia era toda a felicidade que poderia conseguir. Tive uma vida indisciplinada e livre. A única lei que conheci e respeitei foi a lei do mais forte. Tal como o abutre à espreita do alimento, eu vivia o dia a dia. A fome era a minha bússola.
Não questionava minha situação, pois já tendo nascido num ambiente miserável, não conhecia outra vida. Mais tarde, passei a observar as crianças abastadas, acompanhadas de suas mães, senhoras de fino trato. Também admirava os homens nobres, que se apresentavam sempre bem arrumados, ostentando uma riqueza inatingível. Desgostava profundamente do inverno, pois o frio era intenso. Resistia às custas de cobertores que roubava, ou que conseguia trocando por pequenos serviços prestados. Cresci de forma vil e ultrajante, sendo repudiado por comerciantes e mal visto pelas pessoas que passavam nas ruas. Praticava pequenos furtos para sobreviver ou mendigava.
Quando atingi a maioridade, fui recolhido à prisão por meus desvios de conduta.
Então, degenerei mais rapidamente. O frio das celas e o gelo dos corações dos guardas faziam piorar meu estado de espírito. Não havia solidariedade alguma. A dor e o sofrimento constantes provocaram uma revolta íntima. Comecei a indagar porque a minha vida era tão difícil. Esta miserável pergunta multiplicou a insatisfação com tudo. Passando a questionar, perdi a defesa natural da inocência e comecei a desejar vingança. Os outros deveriam conhecer o meu sofrer. Não ficaria mais calado, eu revidaria.
Após cumprir a minha pena, voltei a caminhar a esmo pelas ruas. Desta feita, as delinquências que cometia tornaram-se mais graves. Assaltava com estiletes ou facas e intimidava jovens, mulheres e viajantes. Tornei-me um marginal consumado.
Numa noite de nevoeiro, comum em Londres, encontrava-me à espreita de uma nova vítima. Deparei-me com um homem obeso que caminhava lentamente sob a friagem, à distância. Aguardei nas sombras como o lobo espera a presa se aproximar. Surgi da escuridão, despejando várias estocadas no infeliz homem. Queria roubá-lo, mas o sangue que eu nunca havia derramado aterrorizou-me. Corri o quanto pude, desesperado pelo atentado cometido num momento de insânia. Somente quando me faltaram as forças por completo, eu parei. Nos dias seguintes, perambulei atormentado pela imagem sangrenta, que martelava a minha mente sem parar.
Após um curto período em que me desequilibrei por completo, dirigi-me ao rio Tâmisa. Do alto da ponte que o atravessa, vislumbrei as águas que refletiam um céu cinzento.
Comecei a chorar. Pensei o quanto eu era um ser miserável e, desta forma, quis punir-me com a morte, acreditando que tudo se extinguiria para sempre. Então, mergulhei e logo bati com a cabeça em algo sólido, mas não perdi os sentidos de imediato, sentindo a água invadir os meus pulmões. Amarga ilusão! A morte veio rapidamente, mas eu continuava vivo em espírito, não percebendo que havia perdido o corpo físico. Na minha mente, as sensações da pancada na cabeça, do sangue a jorrar e do afogamento perduravam. A sequência da cena do suicídio repetia-se incessantemente. Eu era um pesadelo vivo. Por que não morria de vez?
Num estado de sofrimento muito pior que o de antes, permaneci por longos anos. Não havia meio de parar o processo. A ânsia pelo ar e a dor da ferida aberta eram minhas companheiras inseparáveis. Mas, em um momento de lucidez, clamei pela ajuda divina.
Lembrei-me de Deus porque usava seu Santo Nome para pedir esmolas quando fora mendigo, antes de me tornar um bandido. Não sabia ao certo se Deus existia, porém a quem recorreria?
Tive uma grande surpresa ao ser retirado das águas por mãos generosas, em meio a minha dolorosa aflição. Emocionado e esgotado, deixei-me invadir por um intenso torpor, vindo a desfalecer.
Fiquei por muito tempo num hospital espiritual, recebendo tratamento. Eu tinha muitas crises no princípio, ainda rememorando o suicídio, mas também lembrando o assassinato que cometera. Não tinha muitas esperanças de alcançar o equilíbrio, pois apesar da pequena melhora inicial, estava já estagnado por longo período. Assim, mergulhei de volta à matéria densa, renascendo no Brasil, à busca de lenitivo e regeneração.
Obtive um corpo defeituoso, mas que me foi muito útil para esquecer o passado tenebroso. Minha nova vida foi relativamente curta e sofrida, mas durou o necessário para que eu me reequilibrasse.
Hoje, permaneço à espera de melhor chance na Terra, a fim de desenvolver sentimentos mais nobres e, de fato, evoluir. Já fui informado que quando reencarnar novamente  terei que resgatar o assassinato que cometi. Provavelmente terei uma morte abrupta, não sei se da mesma forma que provoquei. Porém, estou consciente da lei de causa e efeito e aceitarei o que Deus me reservar. Tenho conhecimento de que a família que albergará meu espírito é modesta, mas de bons princípios, e me facultará a oportunidade de estudar e ter uma profissão. Agora compreendo as causas das minhas duras provações no passado e pretendo, de forma mais resoluta, cumprir as metas traçadas a fim de melhorar-me”.

Jordão  26/04/1995  (Espíritos Diversos, Depoimentos do além, p. 37)
      
A justiça de Deus é pontual, porém o seu amor para conosco ainda é maior.
Sempre dá-nos novas oportunidades de ressarcirmos nossos débitos, oferecendo oportunidades para isso, em novas reencarnações. Ele é tão generoso que nos permite pagar nossas dívidas em “suaves prestações.”  

sábado, 22 de dezembro de 2012

A DIREÇÃO DA TERRA




“Uma nuvem de fumo vem-se formando, há muito tempo, nos horizontes da Terra cheia de indústrias de morte e destruição. Todos os países são convocados a conferirem os valores da maturação espiritual da
Humanidade, verificada no orbe há dois milênios. O progresso científico dos povos e as suas mais nobres e generosas conquistas são reclamados pelo banquete do morticínio e da ambição, e, enquanto a política do mundo se sente manietada ante os dolorosos fenômenos do século, registram-se nos espaços novas atividades de trabalho, porque a direção da Terra está nas mãos misericordiosas e augustas do Cordeiro.

O exemplo do Cristo

Sem nos referirmos, porém, aos problemas da política transitória do mundo, lembremos, ainda, que a lição do Cristo ficou para sempre na Terra, como o tesouro de todos os infortunados e de todos os desvalidos.
Sua palavra construiu a fé nas almas humanas, fazendo-lhes entrever os seus gloriosos destinos. Haja necessidade e tornaremos a ver a crença e a esperança reunindo-se em novas catacumbas romanas, para reerguerem o sentido cristão da civilização da Humanidade.
É, muitas vezes, nos corações humildes e aflitos que vamos encontrar a divina palavra cantando o hino maravilhoso dos bem aventurados.
E, para fechar este capítulo, lembrando a influência do Divino Mestre em todos os corações sofredores da Terra, recordemos o episódio do monge de Manilha, que, acusado de tramar a liberdade de sua pátria contra o jugo dos espanhóis, é condenado à morte e conduzido ao cadafalso.
No instante do suplício, soluça desesperadamente o mísero condenado:
 – ‘Como, pois, será possível que eu morra assim inocente?
Onde está a justiça? Que fiz eu para merecer tão horrendo suplício?’
Mas um companheiro corre ao seu encontro e murmura-lhe aos ouvidos:
 - ‘Jesus também era inocente!...’
Passa, então, pelos olhos da vítima, um clarão de misteriosa beleza.
Secam-se as lágrimas e a serenidade lhe volta ao semblante macerado, e, quando o carrasco lhe pede perdão, antes de apertar o parafuso sinistro,
ei-lo que responde resignado:
 - ‘Meu filho, não só te perdoo como ainda te peço cumpras o teu dever.’”   
(Emmanuel, A caminho da luz, p. 110)

Jesus, o governador da Terra, bem conhece cada nação, sua vocação, suas inclinações.
Conhece  também a capacidade de cada uma em seguir seus ensinamentos.Não importa a Doutrina.
Ele só quer que nos amemos uns aos outros. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

O Escravo da Ilha



“Gostaria de deixar uma mensagem para os irmãos terrícolas. Meu exemplo foi o da dor, mas encontrei-me com a Verdade Maior. Sou, hoje, um espírito em vias de regeneração e busco minha libertação com tenacidade, porque agora reconheço o caminho que conduz à paz.
Em épocas remotas, enverguei trajes guerreiros. Lutava, combatia com ardor, mas sem uma direção definida de vida. Apenas vivia ao sabor das conquistas e dos prazeres do mundo.
Tinha eu um grande domínio em terras e a expansão delas era praticamente meu único objetivo. Mas, os tempos passaram e tornei-me um velho para os padrões vigentes. A morte então veio me levar, e não tinha eu bons valores para pesar na balança da Justiça de Deus.
Mais à frente, voltei ao mundo físico em condições miseráveis, vindo a me tornar um reles escravo. Trabalhava sob dura disciplina, não havendo momento certo para descanso.
Normalmente, apenas algumas horas de sono nos eram permitidas. Refiro-me às galeras romanas. Era eu um pobre remador, que passava seus dias sob ferros.
Em certa oportunidade, uma borrasca mais forte veio a ocorrer, e o navio onde prestava serviço foi a pique. Salvei-me por milagre, pois minhas correntes, já gastas, se partiram quando grossa acha de madeira tombou sobre elas, enquanto o navio soçobrava.
Nadei com dificuldade até encontrar uma espécie de tonel, onde me segurei. Muitos homens, fortes e sadios, vi morrerem pelas águas. Outros, muito feridos, não puderam suportar.
Somente eu e um humilde empregado livre da embarcação sobrevivemos, pois conseguimos chegar a uma ilha, perto da qual naufragáramos.
Durante anos vivi com as argolas de ferro em meus membros. Delas não pude eu me livrar. Parecia que ficavam lá para lembrarem-me da minha miserável condição. Não poderia, sequer, ser resgatado por alguma embarcação, pois que seria recolhido como escravo novamente. Assim, tive que escolher viver no isolamento. Era livre agora, mas estava só, porque meu companheiro de infortúnio rapidamente partiu em busca da civilização. Neste estado, vivi às custas de escassos recursos de alimentação e moradia. Porém, pude meditar sobre a vida, tendo como companhia os animais e o vento incessante que vinha do mar. Estes não falavam comigo e até sentia que me rejeitavam de certa forma. Então, aprendi a perscrutar minha alma e a entender meus sentimentos. Adquiri compaixão pelos seres viventes. Como era só, aprendi a valorizar toda forma de vida. A natureza bravia ensinou-me a ser humilde.
Após muito tempo nesta situação, volvi meus olhos para o céu pela última vez, deixando o corpo de carne.
Liberto, atingi estância de rara beleza, mas seus portões estavam fechados. O porteiro, poderoso romano em sua resplendente armadura, barrou-me a passagem, indagando: “– Alto lá! O que queres aqui?” Respondi: “– Sou apenas um escravo e quero voltar a trabalhar.” Em meu íntimo desejava voltar a ter contato com as pessoas, mesmo que isto custasse a minha liberdade novamente. Então, o imponente homem analisou-me por uns instantes, mandando-me esperar. Após algum tempo, belo homem de alvas roupagens veio atender-me. Seus cabelos brancos indicavam que deveria ter larga experiência de vida. Ele disse-me que poderia entrar e que as argolas que demarcavam a minha condição de escravo seriam retiradas, já que naquele lugar só eram aceitos homens livres para o trabalho. Estremeci de alegria, pois não esperava tão grande sorte, aceitando prontamente a oferta.
Uma vez sendo incorporado à bela cidade espiritual, recebi a humilde incumbência da enfermagem. Tratava das feridas, das chagas daqueles que desencarnavam, principalmente em campos de batalha, mas que tinham mérito de serem acolhidos pelos espíritos de luz. Depois de longos anos de trabalho árduo, desenvolvi uma compaixão e solidariedade mais profundos com relação àqueles que sofrem. Pude perceber, que a solidão pela qual passei na ilha enquanto encarnado, mais a possibilidade de auxiliar meus antigos algozes romanos em plena espiritualidade, confraternizando-me com eles, era um sublime aprendizado de Amor ao próximo que eu recebia. Ou seja, a aspereza daquela minha vida material foi o remédio amargo que contribuiu decisivamente para a cura de meu espírito. Eu soube sorvê-lo sem revolta, alcançando minha liberdade com relação ao desejo de conquistas, e transformando a frieza do meu coração em receptividade para com o sofrimento alheio.
Mais à frente, reencarnei muitas vezes, podendo testar-me mais quanto às qualidades espirituais. Falhei em algumas oportunidades, melhorei-me em outras, mas não posso esquecer-me da já remota experiência que tive naquela ilha. Aquela encarnação está bastante viva em minha alma, pois foi o momento do meu despertar como ser humano e como filho de Deus”.
Simão  09/05/1995  (Espíritos diversos, Depoimentos do além, p. 46-47)

As sucessivas reencarnações são para nós espíritos endividados ou recalcitrantes a única maneira de nos purificarmos
e nos tornarmos merecedores de companhias espirituais cada vez mais elevadas.É também de maneira geral, o único modo de conquistarmos condições melhores de novas reencarnações.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O REI



"Retorno hoje à Terra com grande satisfação e com o coração aberto para servir aos irmãos do caminho, através de uma experiência de vida que tive no passado.
Em tempos idos, estive presente no mundo físico com o nome de conhecido rei. Como não compreendia as necessidades do próximo, não dava importância a queixas e lamúrias diversas, que chegavam até a mim. Levava uma vida extremamente luxuosa e tinha tropas e guardas pessoais à disposição, para protegerem-me de quaisquer contrariedades. Não concebia perdoar e, muito menos, auxiliar a alguém que não pudesse me propiciar um retorno, seja político ou monetário. Muitas mulheres de grande beleza estavam sempre a minha volta, prontas a atenderem-me ao menor anseio.
Atingi idade madura já entediado da hipocrisia dos homens e da bajulação excessiva.
Em verdade, eu era um escravo da aristocracia da época. Era manipulado pelos homens de maior influência daquela sociedade. Apercebendo-me disso, resolvi dificultar toda e qualquer facilidade, com as quais as classes dominantes estavam acostumadas. Editei leis e modifiquei normas centenárias. Queria afrontar aos ímpios e aos falsos. Contudo, meus sentimentos não eram o que se pode chamar de “ideais nobres”. Apenas constituíam uma reação contra uma subjugação sutil a qual era submetido. Então, passei a ser vítima de armadilhas e desassossegos constantes, até que encontrei a morte através de um envenenamento bem acobertado, de forma que a população não pudesse se aperceber da verdade dos fatos.
Acreditou-se que tive morte natural fulminante, de origem desconhecida. Não cogitaram envenenamento ou usurpação de poder.
Assim, fui posto no túmulo e rapidamente esquecido. Não encontrei serviçais ou regalias no além-vida. Não mais cantos, festas e acepipes. Somente a morte fria e úmida me esperava. Longo tempo passei, debatendo-me à busca de solução para as dores atrozes nas vísceras, corroídas pelo veneno. Minha garganta seca implorava por água. Que triste fim que não terminava!
Após este período, lamúrias passaram a chegar aos meus ouvidos. Gritos de dor repulsivos clamavam justiça ao rei. Não podia entender bem o que havia. Meus guardas não estavam lá para afastar os desgraçados pedintes. Pude mesmo reconhecer alguns antigos milicianos que, agora, lançavam-se contra mim sarcásticos. Orei! Sim, orei fervorosamente pela primeira vez, considerando tanto o período de minha vida material, como o tempo após o meu desenlace. E meus apelos atingiram ouvidos piedosos, que, prestos, vieram recolher-me a uma casa de caridade.
Eu tinha vestes em frangalhos e pés descalços. Não me reconheceram como rei que havia sido, mas tratavam-me como irmão em Cristo. Para mim era completamente novo sentir-me entre pessoas realmente amigas. Não existia, naquele lugar humilde e asseado, a hipocrisia dos pomposos aposentos reais e dos salões de festas da nobreza. Atentei para o fato de que sabiam o meu nome, mas não me chamavam pelo título que tivera no mundo. De início, pensei em reclamar a minha posição, mas o meu coração fez com que a minha boca calasse. Estava sendo socorrido por almas caridosas e isso devia me bastar. Esta foi a grande lição a qual não me esqueci após tanto tempo: a humildade sempre encontra guarida por parte de Deus.
Espero que a minha história contribua para abrandar os corações endurecidos, das pessoas que caminham neste planeta ainda tão cheio de dores. Que os irmãos encarnados possam se lembrar de mim quando o orgulho assomar em vossos sentimentos, ou quando a vaidade quiser sobrepujar a humildade. Na Terra fui um dia exaltado, mas no espaço sofri humilhação para alcançar a Verdade. Por isso, bendigo o abandono e as dores as quais fui submetido, pois, desta forma, meu orgulhoso espírito se dobrou às necessidades de evolução". 08/05/1995
(Espíritos diversos, Depoimentos do além, p. 44-45)

A realidade é que todos somos iguais perante Deus. 
 Não importa poder, riqueza, classe social,  cor da pele. 
No plano espiritual não há distinção , pois que sermos  recebidos conforme nossos atos durante nossa estada enquanto encarnados. 
As nossas atitudes determinam a vida que teremos após a morte.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O DEBATEDOR




“Trago em minha mente espiritual a triste história da trajetória da minha alma, ao longo de várias encarnações, neste mundo.
Sempre fui questionador, mesmo tendo vestes rotas cobrindo o meu corpo. Minha face nunca se inclinava para baixo. Olhava os opositores altivamente, independentemente de sua classe social. Tinha uma personalidade forte, não permitindo humilhações com a minha pessoa. Palavras que fizessem diminuir a minha importância não ficavam sem resposta. A dura guerra das palavras! Nunca fugi dela! Por ela perdi a vida várias vezes.
Quando vivi na França, também vim a desencarnar devido à troca de palavras ofensivas. Neste país, outrora havia grande diferença entre a riqueza dos nobres e a pobreza dos camponeses. Defendi os miseráveis e combati os donos do poder. Praticamente ensandeci por tanto debater-me em contendas. Não aceitava a vida com as suas aparentes injustiças sociais, pois desconhecia a lei universal de ação e reação. O povo era sofredor e eu incorporei a sua dor, morrendo por isto.
Percorri estranhos caminhos além-túmulo. Perturbado, busquei os companheiros de luta, mas não os encontrava. Alguns estranhos, com quem tentei confabular, não me escutavam de forma alguma. Não sabia onde estava minha casa, nem meus familiares. Tinha uma extrema necessidade de conversar sobre os velhos assuntos da política, mas não tinha com quem fazê-lo.
Um dia, quando a angústia cresceu em meu peito, uma força estranha parecia me arrastar. Quando percebi, estava num lugar desconhecido, onde havia uma aglomeração humana. Reconheci antigos amigos de ideais e de infortúnio, há muito derrotados pelas garras do poder. Fiquei tão emocionado que não lembrei que eles já haviam morrido. Na realidade, o choque causado pela minha morte física turvou-me de tal forma o raciocínio, que eu não compreendia o meu novo estado. Então, passei a prestar vívida atenção no que era dito por um deles, mais afetado:
– ‘Companheiros! Vamos às armas! Não podemos mais tolerar os impostos! Não aceitemos mais a tutela de homens vis, que usurpam a nossa liberdade de ação, o livre-pensamento…’.
Fui tomado por um êxtase. Ouvia exatamente o que queria. Isto é o que estava me faltando há muito tempo. Pedi a palavra e discursei com toda a força do meu espírito.
Instiguei todos os presentes à guerra. Daríamos um basta à exploração do povo. Recebi intensos aplausos, que me encheram de satisfação. Aqueles velhos correligionários eram da mesma estirpe que eu. Contudo, a situação não se prolongou. Logo outro veio substituir-me como centralizador das atenções. Este discursou e combateu-me as ideias com veemência. Disse que não era com violência que se modificavam os problemas dos homens, concitando-nos a seguir ao Cristo, pois Ele sim é que revolucionou as relações de poder entre os seres humanos, mostrando o caminho para o alívio das dores físicas e sofrimentos morais.
Fiquei impressionado com a eloquência do contestante, que ao mesmo tempo transmitia uma serenidade profunda, confundindo a todos. Porém, resoluto, retomei a palavra:
– ‘ Não! A miséria e a fome não se eliminam com sermões! A estrutura da sociedade é milenar e a exploração do homem pelo homem remonta à época das cavernas. Só pelas armas é que se pode modificar esta situação. Às armas!’
O outro discursador, que escutara com paciência, permaneceu em silêncio. De olhos cerrados, parecia concentrar-se em algo. Todos esperavam uma réplica e mantinham uma atenção fixa naquele homem de porte altivo. Então, após a longa expectativa, ele falou em tom pausado: – ‘Enquanto vocês buscarem a solução para as suas dores, culpando o vosso semelhante, não encontrareis o caminho da redenção. Enquanto enxergarem vossos irmãos como inimigos, estareis sempre em conflito. Enquanto acharem que só a si pertence a razão, sereis estéreis. Só aqueles que atravessarem a porta aberta pelo Cristo, é que alcançarão à Paz.’
Ao término de sua réplica, o homem transformara-se. A sua figura agora estava radiante de luz e, logo em seguida, tornou-se diáfana. Aos poucos o ser desaparecia diante dos nossos olhos atônitos. Com isso, uns fugiram apavorados e outros caíram de joelhos. Eu fiquei absolutamente paralisado por longos instantes. Uma comoção percorria o meu íntimo. Algo estava se transformando, barreiras quebravam-se, ilusões se desfaziam. Não queria modificar meus pontos de vista. Eu resistia vigorosamente. Lutei contra aquela força avassaladora por tempo indeterminado.
Caminhei pensativo buscando outra região. Queria fugir de mim mesmo, para evitar o inevitável. Não desejava mais a companhia daqueles velhos amigos, mas temia seguir por caminhos novos, até que, em determinado dia, cheguei a um extenso vale. Localizava-me na parte mais baixa do mesmo e podia divisar enormes paredões escarpados à direita e à esquerda. Ali, só havia uma estrada a trilhar. Subi lentamente, pois me sentia cansado e com falta de ar. Atravessei espinheiros, feri meus pés em pedras pontiagudas, sentia tonteiras, fome e sede. Não sabia bem porque estava determinado a ultrapassar àquele obstáculo geográfico.
Quando atingi um platô elevado, já praticamente sem forças, surpreendi-me com a presença de alguns poucos amigos sinceros, de quem eu não me lembrava mais, pois pertenciam a vidas pretéritas, cuja minha memória espiritual não alcançava. Eles acolheram-me com carinho e levaram-me a uma bela cidade. Passei a residir na parte mais humilde desta aglomeração de espíritos, percebendo, no dia a dia, que nunca eu fora tão feliz como ali.
Após a minha recuperação total, recebi a triste notícia de que teria de reencarnar. Esta é a última oportunidade que tenho para dirigir minhas palavras aos homens, antes de envergar novamente um corpo de carne e osso. Agora que eu estou compreendendo melhor as Leis Maiores, senti uma grande necessidade de comunicar-me com o mundo terreno, para que a minha história possa ser útil. Não quero mais que minha voz traga a discórdia.
Meus caros irmãos, somos eternos! Não fujam da realidade do espírito. Não são apenas as pobres organizações materiais que existem. E elas são somente pálidos reflexos do que está nos planos espirituais. Nós somos pequenos viajantes num país de ilusões, que é a Terra. Não acreditem apenas no que os olhos materiais podem enxergar. Busquemos no estudo do espírito o caminho da verdade. Assim, nunca mais nos enganaremos com as falsas afirmativas e
pontos de vista vaidosos e pessoais. Desejemos, enfim, a essência das coisas e dos seres.”  Um amigo  26/04/1995  
(Espíritos diversos, Depoimentos do além, p. 34-35)

A vida após a morte, é cheia de surpresas para quem acredita que a alma tem uma destinação certa: o céu ou o inferno.
 Depara-se com uma “outra” vida para a qual não se preparou, podendo permanecer neste estado por séculos até que se modifique, ou seja, que reconheça seus erros e queira repara-los.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O ESCRAVO




“Gostaria de deixar uma mensagem aos homens do mundo, onde vivi, outrora, sob difíceis condições. Carreguei um pesado fardo, o qual hoje bendigo, que limitou a minha ânsia de poder e de prazeres fugazes.
Fui escravo nos trópicos, mais precisamente em terras brasileiras. Sob a veste física negra, segui vivo por longos 70 anos, quando, chegar até esta idade, era algo raro.
Trabalhei em canaviais, cujas moendas eram movidas pela força do gado. O caldo da cana era transformado no açúcar, que era o ouro da então província portuguesa. Permaneci por longo tempo lavrando a terra fértil, a regá-la com o meu suor.
Dura disciplina marcou a minha vida, que resumia-se a despertar do sono para trabalhar, alimentar-me mal e dormir poucas horas, para, em seguida, tornar ao trabalho. A senzala apresentava péssimas condições de higiene e suas acomodações para o repouso eram desprezíveis. Por tudo isso, o ódio era sentimento comum, que mantinha-se contido pelas próprias limitações a que estávamos submetidos. Qualquer palavra ou movimento que denunciasse a insatisfação que ia no nosso íntimo, resultava em castigo imediato, quase sempre através da chibata e do pelourinho.
Desta forma, minha mocidade se esvaiu e, junto com ela, as boas lembranças da terra natal, na mãe África, donde fui levado quando criança ainda. Parentes meus, como pai e mãe, há muito perdera, pois a expectativa de vida naquela época era de 30 a 40 anos no máximo, normalmente. Eu, já estando nesta faixa etária, não esperava mais nada da vida. Acolhia a ideia da morte com certa alegria, porque, intuitivamente, percebia que ela consistia numa espécie de libertação. Além disso, o meu povo de origem acreditava que os espíritos dos ancestrais falecidos, ainda vivessem numa outra forma, a espreitar seus descendentes sobre a terra. Portanto, eu concluía que estava prestes a me juntar à legião de espíritos que me antecederam na morte física.
Contudo, a minha vida material prolongou-se além do esperado. Até mesmo o senhor do engenho que me viu chegar àquelas plagas, já havia deixado o mundo. Assim, não fui mais aproveitado nos trabalhos sob o sol, permanecendo na senzala, prestando serviços menores aos escravos mais jovens, ou, ainda, realizando pequenas benfeitorias na casa-grande.
Eu era tido como um negro bondoso, mas, na verdade, era apenas um ser resignado.
Fazia as coisas com serenidade porque tinha a esperança de ser feliz no mundo dos espíritos, o que era corroborado por uma sensibilidade especial que desenvolvera na maturidade. Esta sensibilidade me permitia vislumbrar o outro lado da vida, enxergando antigos companheiros de lida, já falecidos, a sorrir-me ou simplesmente a fitar-me.
Quando a morte veio recolher-me ao seu regaço, fui em paz, mas surpreendi-me com tanta festa que fizeram a minha humilde pessoa, no plano espiritual. Fiquei sabendo que em outra época eu havia sido escravagista, quando apresentava-me num corpo de pele branca e traços faciais aquilinos. Pude rememorar que havia sido frio como um abutre e esperto como uma serpente. Barganhava seres humanos como se fossem simples peças de comércio. Nada
valiam além do que algumas moedas de cobre, prata ou ouro. Separei famílias e destruí vidas para usufruir de um bem estar que foi passageiro e ilusório, pois minha vida acabou sendo ceifada por um infeliz escravo, que tentava fugir de minha propriedade.
Naquela oportunidade, revoltei-me pelo desencarne, para mim prematuro. Por isso, não absorvi praticamente nada da lição que me era dada pelas forças superiores.
 Assim, necessitei voltar como escravo, sob condições muito difíceis, para compreender o que é ter a sua vida dirigida por vontade alheia. Sofri, mas agora estava recebendo a dor de forma diferente. A revolta perdeu a força em meu coração e a longa estadia na Terra permitiu-me refletir e solidarizar-me com meus irmãos de jornada e de infortúnio.
Por isso, hoje, agradeço ao Pai a grande oportunidade que tive de evoluir espiritualmente, ao ter minha liberdade tolhida. Ainda envergo no espaço astral a roupagem negra, que muito respeito e estimo como símbolo da minha libertação espiritual. Espero, em Cristo, que meu relato seja útil aos irmãos do plano físico e despeço-me deixando os melhores votos de boa sorte”.     Rubem     03/05/1995  

(Espíritos diversos, Depoimentos do além, p. 42-43)

A força da ação e reação leva a reencarnações expiatórias quando o espírito permanece endurecido, recalcitrante.
 Viveremos a próxima encarnação conforme tivermos vivido a anterior.
Semear é facultativo, mas a colheita será obrigatória