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terça-feira, 16 de julho de 2013

O Nobre



"Sou um viajante cansado pelas inúmeras peregrinações terrenas. Muitas vidas vivi e sofri, aprendendo aos poucos a arte da convivência pacífica. Em passado distante andei por trilhas espinhosas, cometendo excessos que ainda hoje me provocam arrependimentos.
Contudo, estas experiências foram válidas, porque só conhece o caminho correto aquele que prova o fel das contrariedades. Tenciono que os irmãos da Terra aproveitem para meditar, sobre uma parte de minha senda evolutiva, que vou narrar.
Numa de minhas passagens terrenas mais marcantes, provoquei a vergonha de meus iguais, por amar a uma criatura que julgavam pertencer a uma classe inferior. Meus familiares mostraram-se totalmente contra a minha aproximação de humilde moça, trabalhadora braçal em nossa rica casa. Ainda como hoje, o preconceito era comum em toda a parte, naquela época.
A jovem que me encantou tinha olhos da cor do céu, com longos cabelos cacheados, emoldurando uma face rosada. Parecia um anjo. Eu era um moço fogoso de modos impulsivos e me deixei apaixonar por ela arrebatadoramente. Atirei-me no objetivo de conquistá-la, ocultamente, até que cedesse as minhas investidas. Pouco tempo depois, ela ficou grávida.
Olhares acusatórios lançaram-se sobre mim, e para desgraça maior da bela moça, eu reneguei a paternidade, embora gostasse dela. Lembro-me ainda hoje, com tristeza, a expressão de espanto em seu rosto a fitar-me, diante da minha negativa. Eu era fraco para lutar contra a ordem natural das coisas naqueles tempos e, covardemente, permiti que a expulsassem de nossa casa. Era costume antigo repudiar mulheres grávidas que não tivessem esposo.
Senti remorsos por um tempo, mas, leviano, terminei por esquecer o fato, abafando repetidamente as lembranças que queriam vir à tona. Não tive coragem nem para ajudá-la às escondidas, deixando-a sofrer as mais diversas intempéries da vida e da sociedade cruel, até que a perdi de vista.
Por longas décadas apenas recordava vagamente aquela doce figura, tão bela quanto indefesa. Então, meus cabelos encaneceram, mas uma imagem fugidia da moça ainda persistia. Anos mais tarde, tornei-me um velho.
Num dia que não posso esquecer, bateu à minha porta uma senhora. Seus olhos, já os conhecia, embora não conseguisse fixar a quem pertencessem. Seus lábios finos e os cabelos cacheados não me eram estranhos. Era bela, apesar da idade avançada, e fitava-me sem emitir nenhuma palavra. Eu estava atônito, pois começava a perceber quem era. Sim! A jovem de quem eu me enamorara em tempos idos.
Não sabendo o que fazer, pedi-lhe que entrasse e tomasse assento em confortável poltrona da rica sala adornada. Seus olhos pregados nos meus, falavam por si só. Não havia acusação neles, apenas uma melancolia sem fim. Após instantes angustiantes, perguntei-lhe o que desejava. O silêncio perdurou ainda, perturbando-me sobremaneira, até que, por fim, seus lábios mexeram-se. Contudo, o som da sua voz não se fez ouvir. Estava muda em decorrência da emoção. Lágrimas começaram a correr pelos seus olhos e isto já valia, para mim, como mais que mil palavras. Enquanto isso, um aperto em meu coração aumentava, até chegar ao ponto em que eu não podia mais respirar. Então, desfaleci. Não despertaria mais naquele corpo físico. A grande transformação chamada morte havia se dado.
Do outro lado da vida, ouvia acusações constantes. A minha consciência bradava resoluta contra meus erros. Permaneci longos anos num estado de desequilíbrio, causado pelo remorso que explodia em minha alma. Somente após passar por um grande desgaste, uma alma bondosa pôde acolher-me sob sua tutela. Ela explicou-me que, apesar de eu ser um devedor renitente, o Pai Maior sempre nos dá novas oportunidades.
A princípio, não compreendi bem do que se tratava, mas, após alguns esclarecimentos, entendi que as portas da reencarnação abririam-se para mim. Só então, apercebi-me que dura missão havia por realizar, pois seria pai de muitas crianças e estava fadado ao abandono por parte da mãe dos meus filhos. Ficaria com a responsabilidade quase total pela criação e educação dos pequenos.
Atendi contrito à minha boa alma guia, apesar de receoso, já que sabia serem escassas a determinação necessária e a disciplina para suportar as rígidas condições monetárias, sob as quais renasceria. Com este estado de espírito lancei-me à nova experiência.
Em singela casa renasci. Minha mãe era pessoa sofrida e marido não tinha mais.
Cresci, observando-a labutar com extrema dificuldade na manutenção de seus filhos. Portanto, tive um bom exemplo desde a infância, aprendendo a trabalhar duramente para auxiliar a todos.
Atingindo a maioridade, conheci moça leviana com a qual me uni prematuramente, trazendo mais uma vida ao mundo. A jovem tinha um espírito aventureiro, constantemente sumindo de casa, para depois retornar sempre maltrapilha e necessitada de cuidados. Eu, como tinha a consciência pesada em relação ao meu passado espiritual, estava mais humilde, acolhendo-a de volta todas às vezes.
Com o passar dos anos, a pobre criatura deu-me mais três filhos, partindo em seguida para não mais retornar. Trabalhando sob duras provações, fui vencendo obstáculos até que cumpri a minha obrigação de pai, transformando as crianças em pessoas adultas de bem.
Curvado pela idade e algumas mazelas físicas, desencarnei sob o carinho dos quatro entes que criei, deixando saudades na Terra. Uma vez no plano espiritual, o meu passado foi esclarecido devidamente. A minha bela alma guia tornou a me acolher, desta feita com uma ternura ainda maior, pois eu havia resgatado com louvor as faltas pretéritas, e também conduzido corretamente a educação de quatro seres humanos no mundo. Descobri que a infeliz mulher que me havia sido esposa e mãe de meus filhos nesta última vida material, estava vagando em planos inferiores, mergulhada nas trevas da sua própria consciência, há alguns anos. Penalizei-me dela, a quem eu nunca cheguei realmente a odiar. Para meu espanto, soube que ela houvera sido a filha que não assumi na minha penúltima existência terrena, quando abandonei levianamente sua mãe, a jovem com os olhos da cor do céu.
Hoje, compreendo o quanto são intrincadas as situações que provocamos com atitudes desvairadas. A impunidade não existe e os resultados negativos de nossos erros sempre retornam a nós, no tempo devido. Espero que a lição pela qual passei seja útil para quem vir a ler esta mensagem, principalmente àqueles que caminham na Terra encastelados dentro do próprio egoísmo, enceguecidos pelas sensações, e escravizados pelo ócio.
A humildade é a fonte da vitória sobre os instintos grosseiros, porém muitas vezes são necessárias duras provações até que sejamos humildes. Esforcem-se para desenvolver esta virtude, evitando todo mau proceder, pois assim se preservarão das fortes algemas que nos prendem à dor, resultante da Lei de Ação e Reação. Enquanto à retaguarda estiverem seres nos cobrando justiça, não seremos livres para evoluir para o infinito Amor de Deus".
(Diversos espíritos, Depoimentos do além, p. 50-51)


Heveremos um dia de reconhecermos os nossos erros. Só o amor nos levará a corrigi-los sem a imposição da dor.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O MÉDICO


 “Nasci em 1820, na terra chamada Brasil. Fui educado em França, acostumando-me ao bom vinho e às pessoas de “alta estirpe”.

Quando retornei às terras tropicais de origem, surpreendi-me com os homens de pele escura, escravizados de forma tão vil. Já no porto onde desembarquei, tive grande má impressão, ao ver os negros carregando pacotes sob os impropérios de capatazes de pouca gentileza. Contudo, não demorei muito a acostumar-me à situação, pois revoltar-me era esforço demasiado para mim, um homem de ‘fino trato’. Voltei para a soberba fazenda de minha família, envergando o título de doutor da ciência médica. Tal fato era para mim de pouca valia, porque o dinheiro era farto e real vocação para a profissão eu não tinha.

Conheci minha amada alma gêmea numa tarde de verão, sob a sombra de árvores frutíferas, ao redor da casa de meus genitores. Era doce figura, bela como o sol da manhã. O amor que sentia por ela era profundo, em nada parecendo com a superficialidade que cultivava em terras europeias. Pela primeira vez, nutri um sentimento forte o suficiente para me arrebatar. A correspondência de minhas intenções logo se fez e nos amamos por alguns meses, como num sonho excelente. Porém, suprema desgraça! A tuberculose maldita roubou meu amor de meus braços, qual foice a podar tenro broto indefeso. Desolado, afoguei minha grande e funda mágoa nas noitadas e casas da vida. Miserável, espoliei os recursos paternos até a última gota e, quando dei por conta, já era um pária tuberculoso. Perdi minha vida e, para cúmulo de desgraça, caminhei perdido por longos anos à busca da razão do meu ser. Um nada foi o resultado dos meus ingentes esforços, pois encontrei-a na forma de uma criança. Ela estava reencarnada.

Como não poderia mais tê-la, então continuei minha peregrinação, agora sem motivação definida. Um dia, deixei-me ficar numa choça escura, deitado, à espera de um possível auto-aniquilamento. Aguardei neste estado, por longo tempo, com a intenção de perder a própria consciência, mas não obtive sucesso. Certa vez, lembrei-me das pregações de um velho padre de minha paróquia, no mundo terreno. Suas palavras surgiram em minha mente e determinada frase se repetia incessantemente: ‘O céu é o caminho do bom cristão…’.
Levantei-me tropegamente e pensei, pela primeira vez após a morte do meu corpo carnal, que Deus poderia ajudar-me. Quem saberia dizer-me? Tentei orar, mas as palavras certas eu já as tinha esquecido. Tive vergonha e chorei. Eu era um ser desprezível. Grossas lágrimas percorriam meu rosto decrépito. Minhas forças eram mínimas. Porém, neste momento de autocrítica, uma luz surgiu sobre mim, seguida de uma suave voz: ‘ Meu filho! Venha até nós!’ Uma invencível força me atraía para aquela voz, ao mesmo tempo que sentia minhas energias retornarem, como se estivesse rejuvenescendo. Caminhei, ainda cambaleante, mas resoluto na minha vontade de sair daquele estado deplorável. Fui resgatado por boníssimos amigos espirituais.
Hoje, espero uma chance de voltar à Terra. É difícil e constantemente perco a coragem. Contudo, espero que minha história sirva como exemplo a não ser seguido, por aqueles que têm pouca vontade de vencer os obstáculos da vida.”   Rodrigo  19/04/1995
(Pablo de Salamanca, médium, Depoimentos do além,p. 6-7)
Ninguém é condenado eternamente. Deus em sua infinita bondade e misericórdia dá-nos infinitas chances de recuperarmos o tempo perdido, basta que busquemos o auxilio da oração.
Nesse momento somos regatados e conduzidos para hospitais no plano espiritual a fim de nos refazermos e nos prepararmos para mais uma  etapa evolutiva em uma nova vida no plano material.