quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Uma realeza terrestre


 "Quem melhor do que eu pode compreender a verdade destas palavras de Nosso Senhor: "O meu reino não é deste mundo"? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o nenhum valor dos reinos da Terra, se eu o não compreendia? Que trouxe eu comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para tornar mais terrível a lição, ela nem sequer me acompanhou até o túmulo! Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no reino dos céus! Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh! como então compreendi a esterilidade das honras e grandezas que com tanta avidez se requestam na Terra!
Para se granjear um lugar neste reino, são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua celeste prática, a benevolência para com todos. Não se vos pergunta o que fostes, nem que posição ocupastes, mas que bem fizestes, quantas lágrimas enxugastes.
Oh! Jesus, tu o disseste, teu reino não é deste mundo, porque é preciso sofrer pira chegar ao céu, de onde os degraus de um trono a ninguém aproximam. A ele só conduzem as veredas mais penosas da vida. Procurai-lhe, pois, o caminho, através das urzes e dos espinhos, não por entre as flores.
Correm os homens por alcançar os bens terrestres, como se os houvessem de guardar para sempre. Aqui, porém, todas as ilusões se somem. Cedo se apercebem eles de que apenas apanharam uma sombra e desprezaram os únicos bens reais e duradouros, os únicos que lhes aproveitam na morada celeste, os únicos que lhes podem facultar acesso a esta.
Compadecei-vos dos que não ganharam o reino dos céus; ajudai-os com as vossas preces, porquanto a prece aproxima do Altíssimo o homem; é o traço de união entre o céu e a Terra: não o esqueçais." - Uma Rainha de França. (Havre, 1863.)
(Allan Kardec,O Evangelho segundo o espiritismo,cap II )

Os bens materiais são importantes para a vida no plano terrestre,
 mas tenhamos em conta
de que a vida verdadeira é aquela para a qual passamos após a morte e para a qual
 levamos somente os bens morais adquiridos com o esforço de nos tornarmos melhores.  


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A VIDA CONTINUA




       " Minha filha,
que a paz do Senhor seja conosco!
Desde o momento em que o anjo da morte me dirigiu seu pensamento, enviando-me a lú­gubre mensagem da “angina-pectoris”, um tur­bilhão indescritível tomou conta do meu Espírito.
A princípio, com as carnes sacudidas pe­los estertores do coração que não mais podia cooperar com a vida física, inenarrável sofri­mento tomou-me todas as fibras, do peito ao cérebro e deste aos pés, fazendo-me enlouque­cer. Atormentada entre as idéias da “morte” apavorante que eu temia e a ansiedade da “vida” que escapava ao peso cruel do sangue que se negava a irrigar artérias, veias e vasos, senti que ia tombar.
Reuni as forças que desapareciam céleres, abandonando-me impiedosamente, tentando resistir à violência da dor que me despedaçava toda, e mais não consegui senão emitir gritos de­sesperados, semilouca. Tinha a impressão de que vi­gorosa mão de ferro me estraçalhava o coração e, a par da agonia que não posso descrever, sentia que a vida fugia rápida, fazendo-me desmaiar, sem que, con­tudo desaparecesse a dor superlativa que durante muito tempo iria conservar-me envolta em angústia sombria e inquietante.
Não poderei dizer o tempo em que demorei des­falecida. Guardo, ainda hoje, a impressão de que, em volta, um torvelinho me arrastava, dando-me a sen­sação de queda, em profundo abismo sem fim.
Subitamente, como se me chocasse de encontro ao solo, despertei agonizante, tateando em trevas aos gritos de lamentável perturbação. O peito conti­nuava a doer desesperadamente como se estivesse estilhaçado por violento projétil que o varasse, rom­pendo carne e ossos e deixando-o a sangrar...
Oh! Jesus, o sofrimento daquela hora!...
O tempo passava sem que eu tivesse notícia, se­não através da agonia que parecia não ter fim.
Como a dor não cessasse, simultaneamente im­pressões diferentes me acudiram ao cérebro turbilho­nado, agigantando meu desespero. Frio glacial apo­derou-se lentamente dos membros inferiores, amea­çando imobilizar-me. Ante essa inesperada sensação, tive a impressão de que pesadelo muito cruel me tor­turava, mas do qual me libertaria em breve. Aquietei-me um pouco, acarinhando a expectativa do agradá­vel despertar... porque tudo aquilo não passaria cer­tamente de um sonho mau.
Além do frio, dores generalizadas paralisaram-me os movimentos, enquanto o enregelamento me tornara­ rígida, O pavor rondava-me, implacável. Sem poder mais raciocinar, sacudida nas ondas crispadas desse mar de desconhecidos sofrimentos, vislum­brei tênue claridade, como se a alva tocasse meus olhos. Tive, então, as primeiras noções do lugar em que me encontrava, permanecendo, entretanto, imóvel.
De início, turvas e embaçadas, as imagens não se tornavam reconhecíveis. Inquieta, percebi-me dei­tada no leito costumeiro, hirta e pálida.
Desejei levantar-me, andar, correr, suplicar auxí­lio; estava paralisada, atada a cadeias poderosas. A língua já não se articulava. O cérebro parecia-me de­vorado por labaredas crepitantes. Os olhos, fechados, negavam-me fitar a luz, embora eu “visses tudo e acompanhasse os movimentos exteriores. Escorria-me o pranto incessante, queimando-me a face, e o pensamento se me afigurava qual incandescida cal­deira, cheia de desesperos a destruir-me.
Não tinha idéia das horas.
Indagava mentalmente, no martírio, o que me acontecera. Onde estava o companheiro de tantos anos? Os irmãos de fé espírita, onde se encontravam eles que me não socorriam? Os cooperadores dedi­cados do nosso programa de assistência social, para onde fugiram? Para onde conduziram as criancinhas a que me acostumara a amar; por que não me fala­vam? E lembrei-me do Mestre bondoso que se fizera a segurança de todos os infelizes.
No tumulto do meu cérebro, a figura incompará­vel de Jesus tomou vulto, amenizando lentamente meus sofrimentos. Embora não cessassem de todo, as dores diminuiram e uma quietação momentânea aplacou-me o incêndio interior.
Respirei algo facilmente.
De longe, pareciam-me chegar aos ouvidos sons e vozes abafados. Embora de olhos fechados, “vi” que algumas pessoas choravam.
Atraída, desejei erguer o corpo; senti-me sair de dentro do casulo carnal, que então pude ver. En­contrava-me deitada, no esquife mortuário, e de pé, ao seu lado, simultaneamente. Apalpei-me apres­sada e senti-me físicamente. Tudo em mim vibrava com a mesma intensidade doutrora, avolumando-se às impressões da carne a agressão da dor.
Procurei alargar os movimentos e percebi que o frio terrível desaparecia, desatando-me do porto da rigidez. Andei um pouco vacilante e, de súbito, na mi­nha mente brilhou inesperada idéia: eu não estaria morta, porventura! — indagava-me. Atirei-me apres­sadamente ao corpo, tentando erguê-lo para fugir a esse pensamento “tenebroso” e libertar-me das afli­ções. Não consegui, entretanto, o meu intento. As lá­grimas voltaram a romper as represas e corriam volu­mosas.
Não, não era possível, afirmava intimamente, ten­tando aquietar-me. Tudo aquilo não passava certa­mente de um sonho fantástico ou de um desdobra­mento mediúnico, no Reino da Morte. Não era crível que eu tivesse morrido. Sentia-me viva, não obstante as dores que me cruciavam. Encontrava-me lúcida, raciocinava, sofria... Não podia estar morta. Quando acordasse, oraria e procuraria apagar das lembran­ças aqueles momentos de pavor.
Estive quase aliviada com esses raciocínios. No entanto, a realidade era outra.
Ao abraçar-me ao corpo, senti-lhe a frieza e ve­rifiquei, apesar de deitar-me sobre ele, que não me conseguia ajustar qual ocorre à mão calçada em luva apropriada. Esforçando-me “vesti-lo” outra vez, verifiquei, atribulada, que minha vontade não mais o acionava.
Compreendi, embora relutante: estava “morta”.
Ao admitir esta idéia, fui acometida de profundo terror. Voltaram-me à mente as explanações do nos­so Diretor Espiritual, ouvidas em nosso Cenáculo de orações. Antes de refazer-me da surpresa, descobri-me profundamente ignorante em Doutrina Espírita, que é abençoado roteiro no país dos “mortos”. Ten­tei recapitular os ensinamentos ouvidos antes; toda­via, o inesperado daquela hora descontrolava-me, prostrando-me abatida, mais uma vez.
O torpor, que, antes me invadira, retornou, dei­xando-me livre somente o pensamento que, agora, percorria célere as sendas das recordações mistura­das às lutas da existência, fazendo-me defrontar o corredor da loucura.
Surpreendi-me novamente fora do corpo, apesar de a ele estar atada por fortes cordões que não im­pediam que me distanciasse. Passei, então, a experi­mentar alívio novo e ouvi, emocionada, o murmúrio de preces intercessórias. Nossas crianças (*) e com­panheiros, em volta do caixão funerário, oravam pela minha alma, que se iniciava na grande viagem. Pro­curei ajoelhar-me acompanhando aquele culto de sau­dade, mas, antes que pudesse coordenar os pensa­mentos, leve sono venceu-me, vagarosamente, as fi­bras cansadas, convidando-me ao repouso.
Perdendo-me em remoinho, eu sentia afrouxarem-se-me os músculos, ao mesmo tempo em que meus pensamentos mergulhavam nas águas escuras do es­quecimento. Embora desejasse acompanhar o desen­rolar dos acontecimentos daquele instante máximo de minha vida, deixei-me arrastar pelo cansaço, ex­perimentando invencível torpor mental, enquanto re­cordava que a vida continua..."


(*) Otília Gonçalves foi diretora da Mansão do Caminho”, em Salvador, Bahia, durante alguns meses. Nota da Editora.(Otília Gonçalves / Divaldo P. Franco, Além da morte,p.09)

A passagem do plano físico para o plano espiritual é um momento cercado de muita angústia e inquietação mesmo para espíritos esclarecidos, 
principalmente quando se dá de forma violenta ou repentina.


sábado, 27 de julho de 2013

Acerca da aura humana

Meus amigos:
Para alinhar algumas notas acerca da aura humana, recordemos o que seja irradiação, na ciência atômica dos tempos modernos.
Temo-la, em nossas definições, como sendo a onda de forças dinâmicas, nascida do movimento que provocamos no espaço, cujas emanações se exteriorizam por todos os lados.
Todos os corpos emitem ondulações, desde que sofram agitação ou que a produzam, e as ondas respectivas podem ser medidas pelo comprimento que lhes é característico, dependendo esse comprimento do emissor que as difunde.
A queda de um grânulo de chumbo sobre a face de um lago, estabelecerá ondas diminutas no espelho líquido, mas a imersão violenta de um calhau de grandes proporções criará ondas enormes.
A quantidade das ondas formadas por segundo, pelo núcleo emissor, é o fenômeno que denominamos freqüência, gerando oscilações eletromagnéticas que de fazem acompanhar da força de gravitação que lhes corresponde.
Assim é que cada corpo em movimento, dos átomos às galáxias, possui um campo próprio de tensão e influência, constituído pela ondulação que produz.
Para mentalizarmos o que seja um campo de influência, figuremo-nos uma lâmpada vulgar. Toda a área de espaço clareada pelos fótons que arroja de si expressa o campo que lhe é próprio, campo esse cuja influência diminui à medida que os fótons se distanciam do seu foco gerador, fragmentando-se ao infinito.
Qual ocorre com a matéria densa, sob estrita observação científica, nosso espírito é fulcro de criação mental incessante, formando para si mesmo um halo de eflúvios eletromagnéticos, com o teor de força gravitativa que lhes diz respeito.
Nossos pensamentos, assim, tecendo a nossa auréola de emanações vitais ou a ondulação que nos identifica, representam o campo em que nos desenvolvemos.
Mas se no físico a agitação da matéria primária pode ser instintiva, no plano da inteligência e da razão, em que nos situamos, possuímos na vontade a válvula de controle da nossa movimentação consciente, auxiliando-nos a dirigir a onda de nossa vida para a ascensão à luz, ou para a descida às trevas.
Sentimentos e idéias, palavras e atos são recursos íntimos de transformação e purificação da nossa esfera vibratória, de conformidade com a direção que lhes imprimimos, tanto quanto as dores e as provas, as aflições e os problemas são fatores externos de luta que nos impelem a movimento renovador.
Sentindo e pensando, falando e agindo, ampliamos a nossa zona de influência, criando em nós mesmos a atração para o engrandecimento na Vida Superior, ou para a miséria na vida inferior, segundo as nossas tendências e atividades para o bem ou para o mal.
Enriqueçamo-nos, pois, de luz, amealhando experiências santificantes pelo estudo dignamente conduzido e pela bondade construtivamente praticada.
Apenas dessa forma regeneraremos o manancial irradiante de nosso espírito, diante do passado, habilitando-nos para a grandeza do futuro.
Constelações e mundos, almas e elementos, todos somos criações de Deus, adstritos ao campo de nossas próprias criações, com o qual influenciamos e somos influenciados, vivendo no campo universal e incomensurável da Força Divina.
Se nos propomos, desse modo, aprimorar nosso cosmo interior, caminhando ao encontro dos tesouros de amor e sabedoria que nos são reservados, sintonizemos, no mundo, a onda de nossa existência com a onda do Cristo, e então edificaremos nas longas curvas do tempo e do espaço o atalho seguro que nos erguerá da Terra aos pináculos da gloriosa imortalidade". F. Labouriau ( Diversos espíritos, Vozes do grande além, p. 13 )

 A escolha é nossa! 
Viver em sintonia com a "onda do Cristo" é seguir o seu Evangelho, é viver o bem e praticar o bem. Assim poderemos ampliar o "manancial irradiante do nosso espírito."
  

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Nobre



"Sou um viajante cansado pelas inúmeras peregrinações terrenas. Muitas vidas vivi e sofri, aprendendo aos poucos a arte da convivência pacífica. Em passado distante andei por trilhas espinhosas, cometendo excessos que ainda hoje me provocam arrependimentos.
Contudo, estas experiências foram válidas, porque só conhece o caminho correto aquele que prova o fel das contrariedades. Tenciono que os irmãos da Terra aproveitem para meditar, sobre uma parte de minha senda evolutiva, que vou narrar.
Numa de minhas passagens terrenas mais marcantes, provoquei a vergonha de meus iguais, por amar a uma criatura que julgavam pertencer a uma classe inferior. Meus familiares mostraram-se totalmente contra a minha aproximação de humilde moça, trabalhadora braçal em nossa rica casa. Ainda como hoje, o preconceito era comum em toda a parte, naquela época.
A jovem que me encantou tinha olhos da cor do céu, com longos cabelos cacheados, emoldurando uma face rosada. Parecia um anjo. Eu era um moço fogoso de modos impulsivos e me deixei apaixonar por ela arrebatadoramente. Atirei-me no objetivo de conquistá-la, ocultamente, até que cedesse as minhas investidas. Pouco tempo depois, ela ficou grávida.
Olhares acusatórios lançaram-se sobre mim, e para desgraça maior da bela moça, eu reneguei a paternidade, embora gostasse dela. Lembro-me ainda hoje, com tristeza, a expressão de espanto em seu rosto a fitar-me, diante da minha negativa. Eu era fraco para lutar contra a ordem natural das coisas naqueles tempos e, covardemente, permiti que a expulsassem de nossa casa. Era costume antigo repudiar mulheres grávidas que não tivessem esposo.
Senti remorsos por um tempo, mas, leviano, terminei por esquecer o fato, abafando repetidamente as lembranças que queriam vir à tona. Não tive coragem nem para ajudá-la às escondidas, deixando-a sofrer as mais diversas intempéries da vida e da sociedade cruel, até que a perdi de vista.
Por longas décadas apenas recordava vagamente aquela doce figura, tão bela quanto indefesa. Então, meus cabelos encaneceram, mas uma imagem fugidia da moça ainda persistia. Anos mais tarde, tornei-me um velho.
Num dia que não posso esquecer, bateu à minha porta uma senhora. Seus olhos, já os conhecia, embora não conseguisse fixar a quem pertencessem. Seus lábios finos e os cabelos cacheados não me eram estranhos. Era bela, apesar da idade avançada, e fitava-me sem emitir nenhuma palavra. Eu estava atônito, pois começava a perceber quem era. Sim! A jovem de quem eu me enamorara em tempos idos.
Não sabendo o que fazer, pedi-lhe que entrasse e tomasse assento em confortável poltrona da rica sala adornada. Seus olhos pregados nos meus, falavam por si só. Não havia acusação neles, apenas uma melancolia sem fim. Após instantes angustiantes, perguntei-lhe o que desejava. O silêncio perdurou ainda, perturbando-me sobremaneira, até que, por fim, seus lábios mexeram-se. Contudo, o som da sua voz não se fez ouvir. Estava muda em decorrência da emoção. Lágrimas começaram a correr pelos seus olhos e isto já valia, para mim, como mais que mil palavras. Enquanto isso, um aperto em meu coração aumentava, até chegar ao ponto em que eu não podia mais respirar. Então, desfaleci. Não despertaria mais naquele corpo físico. A grande transformação chamada morte havia se dado.
Do outro lado da vida, ouvia acusações constantes. A minha consciência bradava resoluta contra meus erros. Permaneci longos anos num estado de desequilíbrio, causado pelo remorso que explodia em minha alma. Somente após passar por um grande desgaste, uma alma bondosa pôde acolher-me sob sua tutela. Ela explicou-me que, apesar de eu ser um devedor renitente, o Pai Maior sempre nos dá novas oportunidades.
A princípio, não compreendi bem do que se tratava, mas, após alguns esclarecimentos, entendi que as portas da reencarnação abririam-se para mim. Só então, apercebi-me que dura missão havia por realizar, pois seria pai de muitas crianças e estava fadado ao abandono por parte da mãe dos meus filhos. Ficaria com a responsabilidade quase total pela criação e educação dos pequenos.
Atendi contrito à minha boa alma guia, apesar de receoso, já que sabia serem escassas a determinação necessária e a disciplina para suportar as rígidas condições monetárias, sob as quais renasceria. Com este estado de espírito lancei-me à nova experiência.
Em singela casa renasci. Minha mãe era pessoa sofrida e marido não tinha mais.
Cresci, observando-a labutar com extrema dificuldade na manutenção de seus filhos. Portanto, tive um bom exemplo desde a infância, aprendendo a trabalhar duramente para auxiliar a todos.
Atingindo a maioridade, conheci moça leviana com a qual me uni prematuramente, trazendo mais uma vida ao mundo. A jovem tinha um espírito aventureiro, constantemente sumindo de casa, para depois retornar sempre maltrapilha e necessitada de cuidados. Eu, como tinha a consciência pesada em relação ao meu passado espiritual, estava mais humilde, acolhendo-a de volta todas às vezes.
Com o passar dos anos, a pobre criatura deu-me mais três filhos, partindo em seguida para não mais retornar. Trabalhando sob duras provações, fui vencendo obstáculos até que cumpri a minha obrigação de pai, transformando as crianças em pessoas adultas de bem.
Curvado pela idade e algumas mazelas físicas, desencarnei sob o carinho dos quatro entes que criei, deixando saudades na Terra. Uma vez no plano espiritual, o meu passado foi esclarecido devidamente. A minha bela alma guia tornou a me acolher, desta feita com uma ternura ainda maior, pois eu havia resgatado com louvor as faltas pretéritas, e também conduzido corretamente a educação de quatro seres humanos no mundo. Descobri que a infeliz mulher que me havia sido esposa e mãe de meus filhos nesta última vida material, estava vagando em planos inferiores, mergulhada nas trevas da sua própria consciência, há alguns anos. Penalizei-me dela, a quem eu nunca cheguei realmente a odiar. Para meu espanto, soube que ela houvera sido a filha que não assumi na minha penúltima existência terrena, quando abandonei levianamente sua mãe, a jovem com os olhos da cor do céu.
Hoje, compreendo o quanto são intrincadas as situações que provocamos com atitudes desvairadas. A impunidade não existe e os resultados negativos de nossos erros sempre retornam a nós, no tempo devido. Espero que a lição pela qual passei seja útil para quem vir a ler esta mensagem, principalmente àqueles que caminham na Terra encastelados dentro do próprio egoísmo, enceguecidos pelas sensações, e escravizados pelo ócio.
A humildade é a fonte da vitória sobre os instintos grosseiros, porém muitas vezes são necessárias duras provações até que sejamos humildes. Esforcem-se para desenvolver esta virtude, evitando todo mau proceder, pois assim se preservarão das fortes algemas que nos prendem à dor, resultante da Lei de Ação e Reação. Enquanto à retaguarda estiverem seres nos cobrando justiça, não seremos livres para evoluir para o infinito Amor de Deus".
(Diversos espíritos, Depoimentos do além, p. 50-51)


Heveremos um dia de reconhecermos os nossos erros. Só o amor nos levará a corrigi-los sem a imposição da dor.

domingo, 23 de junho de 2013

A Lei de Amor


"O amor resume a doutrina de Jesus toda inteira, visto que esse é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso feito. Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior que condensa e reúne em seu
ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei de amor substitui a personalidade pela fusão dos seres; extingue as misérias sociais. Ditoso aquele que, ultrapassando a sua humanidade, ama com amplo amor os seus irmãos em sofrimento! ditoso aquele que ama, pois não conhece a miséria da alma, nem a do corpo. Tem ligeiros os pés e vive como que transportado, fora de si mesmo. Quando Jesus pronunciou a divina palavra -
amor, os povos sobressaltaram-se e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo.
O Espiritismo a seu turno vem pronunciar uma segunda palavra do alfabeto divino. Estai atentos, pois que essa palavra ergue a lápide dos túmulos vazios, e a reencarnação, triunfando da morte, revela às criaturas deslumbradas o seu patrimônio intelectual. Já não é ao suplício que ela conduz o homem: condu-lo à conquista do seu ser, elevado e transfigurado. O sangue resgatou o Espírito e o Espírito tem hoje que resgatar da matéria o homem." (Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap XI, item 8) 


O texto é claro "...quando instruido e depurado, tem sentimentos".É o que falta ao povo brasileiro: instrução e  amor! mais  instrução para fazer valer os seus direitos e amor para  não ser obrigado a  isso!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

FÁBULA SIMPLES


"Quando o diamante já talhado se abeirou da pedra preciosa, saída de cerro áspero, clamou, irritadiço:
_ Que coisa informe! Rugosidades por todos os lados!... Que farei de semelhante aborto da Natureza?
E roçou, com superioridade, sobre a pedra bruta.
A pobrezinha, mal saída do solo em que dormira por milênios, sentindo-se melindrada, tentou reclamar; entretanto, ao observar o clivador, cheio de esperança na utilidade que ela podia oferecer, calou-se.
Findo o dia, o operário recebeu o salário que lhe competia e contemplou-a, tomado de gratidão.
A pedra intimamente compensada, esperou.
No dia seguinte, veio o martelo cônico e, desapiedado, riu-se dela, exclamando:
_ Nariz de rochedo, quem teria o mau gosto de aperfeiçoar-te? Porque a infelicidade de entrar em comunhão contigo, seixo maldito?
O cristal sofredor ia revidar, mas vendo que o trabalhador, que mobilizaria a massa contra ele, o mirava com enternecimento, preferiu silenciar, entregando-se paciente à nova operação de lapidagem.
Sabendo, em seguida, que o operário obtinha, feliz, substanciosa paga, reconheceu-se igualmente enriquecido.
Mais tarde, apareceu o pó de diamante, que gritou, irônico:
_ Porque a humilhação de trabalhar essa pedra amarelada e baça? Quem teria descoberto esse calhau feio e desvalioso?
A pedra ia responder, protestando; contudo, reparou que o lapidário a fixava com respeito, denotando entender-lhe a nobreza interior, e, em homenagem àquele silencioso admirador de sua beleza, emudeceu e deixou-se torturar.
Quando o lapidador recolheu o pagamento que lhe cabia, deu-se ela por bem remunerada.
Logo após chegou a mó de polir, que falou, mordaz:
_ Esta velha cristalização de carbono é indigna de qualquer tratamento... Que poderá resultar dela? Porque perder tempo com este aleijão da mina?
A pedra propunha-se aclarar a situação; contudo, notando a jubilosa expectativa do artífice, que lhe identificara a grandeza, aquietou-se, obediente, e suportou com calma todos os insultos que lhe foram desferidos sobre as faces, até que o próprio polidor a acariciou, venturosamente.
Sem perceber-lhe o valor, o diamante talhado, o martelo, o pó de diamante e a mó viram-na sair, colada ao coração do operário, em triunfo, permanecendo espantados e ignorantes, na sombra da suja caverna de lapidação em que a presença deles tinha razão de ser.
Passados alguns dias, a pedra convertida em soberbo brilhante foi engastada no cetro do governador do seu país natal, passando a viver, querida e abençoada, sob a veneração de todos.
Se encontras-te no mundo criaturas que se fizeram diamante descaridoso, martelo impiedoso, pó irônico ou mó sarcástica sobre o réu coração, suporta-as com paciência, por amor daqueles que caminham contigo, e espera, sem desânimo, porque, um dia,
transformada a tua alma em celeste clarão, virás à furna terrestre agradecer-lhes as exigências e os infortúnios com que te alçaram à glória dos cimos". (Irmão X, Fábula simples,lç 2.)

A beleza da alma não está na aparência física.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

EXPLICAÇÕES DE FILHO



Meu pai, abençoe-me, juntamente de Mamãe, pedindo eu a
Deus nos proteja.
Sou trazido até aqui e escrevo como um doente que ainda
não consegue ajustar as próprias idéias para rogar-lhes
conformação.
Papai, as suas idéias chegam aos meus ouvidos.
É como se o senhor estivesse gritando e por isso ainda não
pude encontrar o repouso de que necessito para me refazer.
Creia, meu pai.
Nós todos somos de Deus e estamos nas mãos de Deus, se
posso dizer assim em me referindo à Providência Divina.
O que aconteceu a seu filho devia acontecer.
Estudarei isso aqui para, mais tarde, explicar-me com mais
segurança.
Não culpe a ninguém.
Meu companheiro de viagem é um bom rapaz.
Se tivemos a provação de estar juntos, é porque isso era
indispensável.
Não pense que vínhamos sem cuidado.
Tudo certo.
Mas, em verdade, papai, quem pode prever que manobra será a dos outros nos caminho sem que estejamos guiando corretamente um carro?
E mesmo que a pessoa seja correta e segura, quem pode garantir a posição dos freios em máquinas dessas que hoje nos favorecem qualquer viagem?
Quando acordei, não compreendia cousa alguma.
O veículo me impusera um movimento brusco e somente depois vim a saber que havia sofrido fratura na base do crânio.
Estou em tratamento.
Daquele 22-23 de maio para cá, o tempo é muito curto.
Sou trazido aqui para que o senhor não enlouqueça de
sofrimento.
Lembre-se de Mamãe, de Sandra, de Nora e de todos os
nossos que precisam de sua presença.
Acalme-se para que seu filho consiga descansar.
Ajude-me.
O senhor foi sempre o meu melhor e maior amigo.
Agora, contarei ainda com a sua proteção e com o seu carinho para sentir-me mais forte.
Reze, meu pai, como vem fazendo a Mamãe.
A oração é um calmante.
Ampare-me.
O senhor queria que eu ficasse para cumprirmos os nossos
planos para o futuro, mas Deus, papai, fez o melhor para nós.
Eu estaria muito triste se houvesse cometido um crime em
desacordo com os ensinamentos e exemplos que recebi de sua vida, constantemente, mas, graças a Deus, voltei para cá de
consciência tranqüila.
Se pudesse, teria permanecido em sua companhia e na companhia de Mamãe; no entanto, as razões da Vida Espiritual devem ser respeitadas.
Nada sei ainda senão que sofro, escutando os seus pensamentos agitados.
Não guarde revolta, meu pai!
Aceitemos a Lei de Deus.
Prometo, quando souber os motivos pelos quais devia fazer aquela viagem a Pirenópolis para me despedir do corpo físico, eu contarei.
Por agora, peço calma e paciência, e, sobretudo, a cessação de qualquer pensamento de suspeita sobre o companheiro que tudo teria feito para salvar-me a vida.
O tempo passa.
O senhor e Mamãe não me perderam.
Aqui, a vida continua e quando tudo estiver rearmonizado, voltarei para cooperar com o senhor em todo o trabalho que Deus nos deu para fazer.
Perdoe-me se não atendi à sua prudência, quando me falou sobre a inconveniência do passeio.
Não foi rebeldia, nem desobediência ao seu carinho. Julguei que tudo daria certo, mas deu certo de outra maneira, da maneira que as Leis Divinas julgaram como sendo a mais justa.
Estou cansado de escrever.
Não consigo continuar.
Peço-lhe com lágrimas para viver e ficar tranqüilo. Lágrimas
de emoção e confiança pela oportunidade de falar escrevendo.
O Vovô Ferreira, seu avô e amigo de nós todos, está comigo.
Com ele, muita gente boa está me amparando.
Apenas eu não posso grafar as minhas idéias com a clareza e a segurança que desejava.
Venho só para pedir-lhe o socorro de sua conformação e de sua paz que me devolverão o equilíbrio e a harmonia de que estou precisando.
Não se aflija com a observação de Tia Leda.
Eu trazia comigo no carro uma rosa amarela e queria dizer que não desejava ver os meus queridos familiares plantando angústia no coração, mas estava com tanta dificuldade para me exprimir, como me sinto agora.
Papai, Mamãe, compadeçam-se de mim e não chorem mais.
Ajudem-me.
Preciso muito da calma de todos.
Agradeço o carinho dos nossos amigos daqui e daí que nos guiaram para este encontro.
Até mais tarde, papai.
Com o senhor e com a Mamãe, e também com as meninas, o coração.
Sou o seu filho reconhecido,
Napoleão.  (Uberaba, 7 de julho de 1972)
(Espíritos diversos, Entre duas vidas, p. 13 )

Cada um de nós tem o seu tempo de permanência aqui no plano físico.
A compreenção de que a vida continua  após a morte do corpo físico,nos consola e nos  mostra que a verdadeira vida é a espiritual. Aqui na Terra passamos uns tempos, revendo nossas atitudes e aprendendo as lições da vida